PADRE VITORIA CONQUISTA BAHIA ASSASSINADO
A TARDE
Salvador, 02 de Abril 2006
31/03/2006
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Assassinato
Assassinado pároco de Conquista
Monsenhor Baldacci foi morto a pauladas na noite
de terça-feira; um suspeito já foi detido e outros
dois são procurados
Juscelino Souza
VITÓRIA DA CONQUISTA (DA SUCURSAL SUDOESTE) – A
Polícia Civil de Conquista solicitou a prisão
temporária de um homem suspeito de ter participado
do crime que vitimou monsenhor Bruno Baldacci, 63
anos. O religioso, de nacionalidade italiana, foi
morto a pauladas em seu quarto, na Paróquia Nossa
Senhora das Candeias, em Conquista, na noite de
quarta-feira – o crime só foi descoberto na manhã
de ontem.
O delegado responsável pelas investigações, Marcus
Vinícius de Morais, não divulga o nome do acusado,
que está custodiado na sede da 1ª Circunscrição
Policial (CP), no bairro Alto Maron. De acordo com
ele, a medida visa preservar o direito do acusado,
pois como não existe culpa formada, o detido
temporariamente pode ser declarado inocente no
curso das investigações.
No entanto, Morais adiantou que “existem fortes
indícios da participação dele”. O delegado também
solicitou a prisão temporária de dois
adolescentes, que figuram como outros suspeitos de
ter assassinado Baldacci.
Os acusados eram vistos com freqüência nas
redondezas da igreja e um deles já havia praticado
furto contra o religioso. “Até hoje, não sabemos
se ele estava recebendo ameaças, porque ele nunca
falou nada sobre o assunto”, diz o padre Edilberto
Amorim, o primeiro a encontrar o corpo de
Baldacci.
CRIME – Na manhã de ontem, funcionários da igreja
sentiram falta do monsenhor, que costumava
levantar cedo, e bateram à porta da casa, sem
resposta. Amorim foi comunicado do caso. Ao chegar
à igreja, abriu a porta e viu o padre sobre o
sofá-cama onde costumava dormir. “Ele estava
inerte, sem vida”, conta o padre.
Amorim relatou o que viu no ambiente. “Mala no
chão, gaveta fora do lugar e tudo jogado por todo
o canto. Não sabemos o que foi furtado, mas com
certeza algo foi levado”, afirma. A suspeita é
reforçada pelo fato de os pertences de monsenhor
Baldacci estarem fora de ordem, inclusive roupas.
“Foi alguém que conhecia a casa, os procedimentos
dele e que tinha liberdade para estar aqui
dentro.”
De acordo com Amorim, Baldacci tinha como rotina
ajudar os pobres e necessitados. “A gente até
imagina que um deles tenha assassinado o padre,
mas com certeza outros padres vão continuar os
trabalhos, assumir esta missão na busca da paz e
da solidariedade”, acredita Amorim.
Pároco da comunidade do bairro Candeias há mais de
20 anos, Baldacci, de nacionalidade italiana,
sempre dispensou segurança ou vigilância para a
área da paróquia – que é cercada por árvores
baixas, jardins e muros. “Era um homem muito
simples, nunca permitiu que a gente colocasse
vigia na igreja”, relata Amorim.
ITÁLIA – O crime teve repercussão internacional,
principalmente na Itália, pátria da vítima e País
onde mantinha contatos diários com familiares,
amigos e religiosos ligados ao papa Bento XVI.
Na cidade, a notícia causou comoção. Centenas de
pessoas, entre fiéis e curiosos, cercaram a área
em busca de detalhes. O sentimento comum era de
indignação. “Esta morte choca pela brutalidade e
nos deixa sem saber como agir numa situação como
esta”, desabafou o comerciante Florisvaldo Santos.
Este foi o segundo líder religioso assassinado em
Conquista. Na noite de 6 de maio de 1988, o padre
Benedito Costa Soares, o padre Bené, então com 49
anos, foi atacado por dois homens e morto com 23
facadas. Os assassinos eram viajantes a quem o
padre oferecera carona nas proximidades da estação
rodoviária.
Monsenhor costumava dizer que “padre deve
tornar-se povo”
Nascido em La Spezia, Itália, em 6 de junho de
1942, monsenhor Bruno Baldacci chegou ao Brasil em
1962. Formado em filosofia pela Universidade
Urbaniana, em Roma, fez curso de teologia em
Salvador, no Instituto Teológico da Bahia, e foi
ordenado padre em Canavieiras, em 15 de novembro
de 1968, por dom Eugênio Sales.
Padre Bruno, como era conhecido, realizou seu
primeiro trabalho sacerdotal em Vitória da
Conquista, de onde saiu para cumprir sua missão em
paróquias de Itapetinga, no sudoeste da Bahia –
onde coordenou a comunidade Nossa Senhora das
Graças. Em 1973, voltou à Itália, para se
especializar em liturgia.
De volta ao Brasil, foi professor do Instituto de
Teologia, em Ilhéus, e reitor de seminários na
cidade e em Conquista, onde assumiu a Paróquia
Nossa Senhora das Candeias, em 1987.
Naturalizado brasileiro em 1988, o religioso foi
reconhecido por realizar um amplo trabalho de
evangelização. Sua frase preferida era: “O padre
deve tornar-se povo. Isto é o mesmo que dizer o
padre deve tornar-se amigo, um alguém que caminha,
que anda com seu povo”.
Majella ressalta “bondade inerente” de Baldacci
Foi com “profunda tristeza” que o cardeal dom
Geraldo Majella Agnelo recebeu a notícia dos “atos
de crueldade que levaram a vida do monsenhor Bruno
Baldacci”. Por ter chegado na última quarta-feira
de Roma e passado o dia em audiências, Majella
preferiu comentar sobre o ocorrido por meio da
assessoria de comunicação da Arquidiocese de
Salvador.
O cardeal analisa a violência crescente como uma
questão do coração humano, em primeira instância.
“O homem carrega a violência no coração por causa
do pecado que tem”, explica. O religioso prega a
transformação do coração pela fé como caminho para
superar as distorções de valores da sociedade
moderna.
“A desigualdade social, pobreza e discriminação na
oferta de oportunidades exacerbam essa dimensão do
coração, que passa de pecado pessoal para pecado
também social”, comenta. Majella ressaltou a
“bondade inerente” do monsenhor Bruno Baldacci,
que sempre viveu para servir aos mais necessitados
e à Igreja Católica.
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